Sobre Barcabogante
Sou Barcabogante, artista multidisciplinar boliviana, indígena de Abya Yala, cineasta e arte-educadora. Desde Florianópolis, Brasil, compartilho uma prática que atravessa gravura, cinema de animação, videoarte, bordado, objetos e experimentação com materiais. Corpo, memória e transformação percorrem meu trabalho, construído com as mãos e em diálogo com os processos artesanais.
DECLARAÇÃO DE ARTISTA
Sou animadora boliviana. Meu trabalho parte quase sempre do figurativo e, pouco a pouco, se desloca para o onírico. Existe uma imagem reconhecível, um corpo, um objeto, uma paisagem, alguma coisa à qual ainda podemos dar um nome. Depois ela começa a se desfazer. Desvanece, se deforma, se fragmenta, muda de matéria ou deixa de ser aquilo que parecia no início.
Desde muito cedo percebi que meus trabalhos tinham uma vontade de revelar o interior das coisas. Apareciam esqueletos, costelas, vísceras, camadas, recantos e fendas difíceis de alcançar. Não procuro o grotesco. O que me interessa é aquilo que normalmente permanece escondido. Tenho a sensação de que as coisas ocultas também fazem parte daquilo que somos e, por isso, não deveriam ser simplesmente negadas.
A memória, minha própria pele, o sono, o corpo, o tempo e suas deformações aparecem repetidamente no que faço. Muitas vezes começo uma obra sem saber exatamente onde ela vai terminar. Investigo, testo, erro, desmonto e volto a construir. Gosto de trabalhar assim: fazendo perguntas através da matéria. Por isso, às vezes meu trabalho parece um jogo de linhas, volumes, texturas, movimentos e cores, mas é um jogo cheio de dúvidas.
Ainda sinto a palavra “artista” como uma identificação muito pesada. Não sei se consigo me reconhecer completamente nela. Prefiro pensar que sou um ser que tem coisas para expressar e que procura os meios possíveis para fazê-lo. Esses meios quase sempre passam pelas mãos, pelos materiais e pelos processos artesanais.
A xilogravura foi durante muitos anos uma espécie de braço direito. Foi através dela que comecei a soltar minha voz e, talvez, a escutá-la pela primeira vez. Depois percebi que essa voz não precisava permanecer presa à madeira ou ao papel. Ela podia se dissolver em outros materiais, atravessar outras técnicas e ocupar outras formas.
Foi assim que passei da gravura à escultura, da escultura aos bonecos, dos bonecos ao movimento, das imagens estáticas às animações experimentais, das estampas ao stop motion, do corpo construído ao corpo que se desfaz. Uma técnica acaba levando à outra. Não penso nelas como territórios separados, mas como diferentes maneiras de aproximar-me da mesma pergunta.
Talvez por isso a metamorfose esteja tão presente no que faço. Interessa-me o momento em que uma forma deixa de conseguir conter aquilo que existe dentro dela e precisa mudar. Uma pele que já não serve. Uma casa que antes protegia e começa a apertar. Um objeto que guarda uma memória até não conseguir mais guardá-la. Um corpo que se transforma para continuar existindo.
Minha prática nasce desse movimento entre guardar e soltar, revelar e esconder, construir e desfazer.
Com o tempo, aprendi que a palavra “limite” é apenas isso: uma palavra.

